Projetos ou Projéteis

Gestão de Projetos ou Projéteis?

Conheça as armadilhas  emocionais de projetos, e quais os insights que podem salvar a sanidade de todos os envolvidos

 

Fala Irmãozinho(as) !  Tudo bem ai?  Vamos falar de Projetos?

A maioria das pessoas da minha geração, seguiram um processo padrão estabelecido na minha época (anos 80), ou seja, trabalhar como OFFICE BOY enquanto estudava a noite, logo depois arranjavam um estágio, e depois trabalhavam na sua área fazendo carreira nela. Mas eu não trilhei o mesmo caminho e a culpa foi do meu pai!

Em 1986, eu tinha 16 anos de idade e meu pai preocupado que eu “fosse alguém na vida”, me matriculou num curso de Q-BASIC quando morávamos em Poços de Caldas/MG e logo após fez alguns grandes esforços e comprou um Computador pessoal de nome TK85 (Microdigita). Neste mesmo ano, a Microsoft® tinha acabado de fazer um histórico contrato com a IBM para desenvolvimento do WINDONS 1.0 que foi (na minha opinião) a pedra fundamental para a criação de grande parte DO MUNDO empresarialmente que vivemos até hoje.

Sim, eu sei que a APPLE® do gênio incontestável Stevie Jobs tem um capítulo completamente especial nisso tudo, porém meu foco é o inicio da “era da computação empresarial em massa” com a criação de servidores, sistemas e aplicações empresariais. Até onde eu sei, “o cara da empresa da maçã” nunca quis fazer um SERVER APPLE ou um Banco de Dados com a marca da maçã. Bom para o Tio Bill Gates, né.

Durante o curso, e com o computador na mão, comecei a aplicar e desenvolver pequenos programinhas na linguagem Basic. Aquilo era mágico para mim, você pensava, programava, testava e depois de alguns acertos acontecia exatamente o que você tinha pensado! Naquele momento eu senti uma sensação de poder sem limites.

Eu fiz uns “joguinhos” (lembrem que tinha 16 anos de idade né) e alguns programinhas que resolviam algumas coisas do meu dia a dia com o meu TK-85. Me lembro que fiz uma calculadora que convertia CRUZEIROS(CR$) em CRUZADOS (CZ$) (fique tranquilo para quem não sabe o que é isso, mas naquele ano o nosso Presidente JOSE SARNEY tinha criado uma nova moeda (Cruzado CZ$ ) no desespero de conter a inflação  de 225% ao ano de 1985 e com isso havia uma conversão necessária entre CRUZEIROS para a nova moeda de nome CRUZADOS.

O que isso tem a ver com O TITULO desse artigo? (Gestão de Projetos ou Projéteis)

Resposta è Absolutamente tudo, e vou explicar para vocês.

Imagine um garoto de 16 anos conseguir resolver os meus próprios problemas desenvolvendo programinhas com seu próprio computador em plena década de 80! Tudo ficou muito fácil na escola e no meu dia a dia. Era simples assim, eu tinha um problema, sabia exatamente o que aquele problema me causava, tinha o conhecimento da ferramenta para automatizar e resolver e por fim …. Tchammmm Problema resolvido por mim mesmo!

Bom, ali eu comecei a entender que um problema resolvido gera (depois de um tempo) visões de outros detalhes que não tinham sido nem percebidos antes da solução. Isso cria um ciclo infindável de melhorias para que exista uma sensação de “saciedade” da solução anteriormente terminada.

Me lembro que fiz um jogo que chamei de Aranha Assassina. Esse jogo eram umas aranhas (claro) que vinham descendo na tela de forma aleatória para sequestrar uma bandeirinha (lindamente desenhada com uma letra “P”, pois a resolução do monitor  era 64 x 44

pontos). Assim que a “aranha” pegava a bandeira o jogo terminava e o objetivo era acertar a aranha com alguns “tiros” para impedir o plano malévolo da esperta aranha em pegar o meu valioso “P”.

 }#{    è Esse era o Desenho da  Aranha.

 

Depois de várias versões novas, várias horas de desenvolvimento e mudanças decidi que já estava perfeito. Eu olhava aquele jogo com uma admiração única, eu planejei e fiz cada ponto daquilo, sabia das dificuldades em desenvolver com as limitações de equipamento e da memória, mas o resultado final para mim era incrível!

Alguns dias depois, eu ainda estava com a dopamina, serotonina e um pouco de adrenalina e então decidi que ia mostrar aquele “feito” da aranha assassina para o “mundo”. Chamei meu primo para vir em casa e mostrei o jogo.  Enquanto eu jogava efusivamente, explicava os desafios de atirar na aranha, da forma aleatória que ela descia, dos problemas que tive por causa do computador com pouca memória, por causa da limitação da resolução e mesmo assim eu havia feito uma aranha assassina. Depois que acabei de mostrar com o brilho nos meus olhos, virei para ele atentamente com um orgulho próprio que quem tinha ganho uma medalha de ouro nas olimpíadas e perguntei:

“Muito Legal né Juninho???”.

Ficou um pequeno silencio ensurdecedor de 3 segundos, ele me disse:

“É.”  (sic)

Depois dos eternos 3 segundos, ele me disse:

-“Primo, essa aranha é muito estranha, não seria melhor se fosse um escorpião? “

Eu praticamente quis brigar com meu primo…. Aquilo não fazia sentido algum! Poxa.. Qual a diferença entre Aranha e Escorpião ? O meu objetivo era fazer um jogo e jogar!! . Eu pensava “será que ele não entende que preciso de mais resolução de monitor para desenvolver um escorpião !?!” Aquilo simplesmente não fazia sentido para mim e literalmente “virei a cara” para meu primo.

Ali naquele momento eu tive a maior explicação e exemplo do que seriam meus próximos anos como consultor, gestor e por fim empresário. A valiosa lição que jamais esqueci…. O famoso desalinhamento conceitual de EXPECTATIVAS!

Eu queria mostrar meu feito e não olhei para as preferencias do meu primo e nem criei uma narrativa anterior explicando do “orçamento” que eu tinha, da limitação da ferramenta que estava disponível naquele momento, nem do próprio escopo que eu tinha em mente. Nem sequer perguntei se ele gostava de jogos!! E se tinha MEDO de aranhas!.

Realmente até aquele momento nem me interessava isso…. Eu tinha uma preferência, estudei semanas, aprendi, desenvolvi, testei e fiz o que eu achava estar perfeito. Isso era o  bastante para mim! Nossa que soberba da minha parte !

Bom, claro que se eu fosse vender o meu jogo para meu primo ele NÃO COMPRARIA. Ou se fosse um projeto solicitado por ele, teria que refazer tudo ou mesmo ter argumentos para explicar que escorpião era muito complexo fazer com resolução de monitor 64 x 44…

O que aconteceu então?

No jogo da Aranha Assassina eu era o Cliente e o Fornecedor ao mesmo tempo. Tinha a ferramenta e desenvolvi algo que realmente importava (para mim). Eu me senti profundamente ofendido quando meu primo “Juninho” criticou meu produto.  E meu primo profundamente decepcionado comigo porque não entendi que Escorpião era melhor que aranha.

Porque eu fiquei tão bravo com meu primo? Porque aquilo realmente me decepcionou a ponto não querer falar com ele? E ele? Porque ele quis me convencer por minutos que escorpião era melhor?

Bom, meu artigo realmente começa aqui !!! Nós somos seres racionais certo? Será que tudo o que fazemos em todos os momentos são completamente racionais? Será que todos envolvidos estão sempre focados em ver o que é apenas tecnicamente viável ou logicamente plausível?

Um jogo com mais de 1450 linhas de programação feito num computador dos anos 80 com limitação de resolução e memória entre outras é “lógico” que não teria como fazer um escorpião né… isso é LOGICO… Mas será que somos movidos apenas pelo LOGICO? A resposta é NÃO.

Vamos ao tema polemico :

Nós somos seres EMOCIONAIS e usamos a RACIONALIDADE para explicar (ou tentar) grande parte das ações geradas pelos sentimentos gerados com alguma situação ou gatilho.

E na boa, você concorda comigo que o que mais acontecem são GATILHOS emocionais em um Projeto certo??

Sim, nós temos basicamente 3 sistemas em nosso cérebro que regem todas as nossas atitudes. O Neo-Cortex (Razão) e o Sistema Límbico (Emoção) e Reptiliano (Sobrevivência)

Esse artigo não quer de forma nenhuma dar detalhes físicos, Neurológicos ou fisiológicos dessas áreas do cérebro, até porque não sou médico e nem é o objetivo deste texto, muito menos tenho alguma formação para colocar aqui detalhes sobre isso, mas….

Quem nunca fez algo que de alguma forma depois de alguns dias ou semanas não fazia sentido? Medo de barata é lógico? Barata não morde, não mata, não machuca você .. E medo de lagartixa?(rsrs)  Ela é feia sim, mas poxa, ela ainda COME BARATAS! Então se barata é um monstro, lagartixa  é o TANUS dos insetos!

EU NUNCA VI NINGUÉM NO MUNDO QUE TENHA MORRIDO DE MORDIDA DE BARATA ! kkk

Pois é… quem tem medo de algum mini bicho “inofensivo” mas que gera Pânico?  Isso tem alguma lógica? Na verdade o MEDO e reações que ele gera não são gerados no NEO-CORTEX (lógica) e sim no Sistema Límbico/Reptiliano (sentimentos). Ou seja, são apenas reações e gatilhos e não são capazes de racionaliza-los de imediato.

 

 

Mas o que será que isso tem a ver com Projetos?

Meu foco a frente são as reações humanas quando usamos essas 3 áreas opostas e muitas vezes antagônicas do cérebro. Acredite, a briga entre elas de forma Intrapessoal e INTERPESSOAL dos “stakeholders” e partes interessadas, são todos os gatilhos que geram todas as guerras no decorrer dos projetos.

Vamos ter como premissa que todos querem que o projeto seja entregue correto? Não faz sentido que um CLIENTE ou o FORNECEDOR em algum momento acorde de manhã e afirme para si mesmo:

“Hoje eu vou fazer de tudo para que o meu projeto vá para o buraco”.

Pela premissa pessoal, todos querem a MESMA COISA. Mas se isso é realmente verdade, porque existem brigas e desacordos??

Quais os gatilhos inconscientes gerados fora do Neo-Cortex que geram Medos… Receios…Duvidas…. que formam o adubo perfeito para um terreno fértil que floresce as maiores brigas nos projetos?

Porque eles acontecem?

Abaixo eu coloco 2 insights “não convencionais” que compilei em mais de 1.300 projetos que já participei pessoalmente nos últimos 22 anos.

 

INSIGHT 1  =  A Clareza

Impossível trilharmos um caminho se não soubermos para onde vamos certo? Esse é um conceito praticamente “sine-qua-non” onde todos concordam sem questionar. Quando ligamos o WAZE para ir para algum lugar não conseguimos chegar se não colocarmos o endereço destino certo? Mas ele vai funcionar se não ligarmos o GPS para saber ONDE ESTAMOS?

Não basta saber para onde vamos sem ter a clareza absoluta de ONDE ESTAMOS. É impossível traçar uma rota para um destino sem ter a clareza do ponto de partida. Neste contexto, quanto mais soubermos identificar com clareza absoluta tudo o que forem nossos recursos, não saberemos se vamos conseguir chegar ao destino (mesmo que ele esteja claro).

Perguntas como:  Quanto tempo eu tenho, dinheiro e recursos pessoais eu tenho, quais os skills necessários para cada recurso, temos margem para mudar o caminho? Quais OS MEDOS que eu ou minha equipe tem? Lembre-se que na jornada de um projeto (como de um carro usando WAZE) podemos precisar tomar novos caminhos para tirar empecilhos da frente. Os envolvidos estão cientes disso? Já estão brifados que isso é normal e esperado?

Nas narrativas dos Gestores de Projeto de ambas partes está delimitado quais os esforços físicos, financeiros e de tempo que são passiveis de margem de manobra? E os psicológicos estão no radar?

Está claro em qual momento e quem decide sobre isso? Até aqui, tudo bem, pois tudo isso esta “mitigado” e descrito no PMBOK, e se os Gestores seguirem à risca tudo vai dar certo, correto?

Na minha opinião, não necessariamente. Lembrem do cérebro Límbico e os gatilhos sentimentais não importando argumentos lógicos!  Então antes da própria CLAREZA eu começaria com os esforços estruturados de ambas as partes para gerar a conexão magica que faz tudo acontecer: A CONFIANCA.

Então, como gerar uma CONFIANÇA que faz as pessoas se conectarem a ponto de estarem realmente no mesmo barco juntos e simbióticos? A resposta é CLAREZA (rs rs). Sim, mas a clareza do porquê do projeto em detrimento de “oque” as pessoas precisam fazer. Quanto todos estiverem alinhados com os mesmos porquês, não haverá nenhum problema em mudanças e readequações no trajeto, pois todos vão tomar decisões engajadas e que fazem sentido.

“Quando vamos viajar, a Clareza do Destino, do ponto de partida e do porque estamos viajando faz a diferença na experiencia do trajeto da viagem.”
Marcus Feixas

 

INSIGHT 2  =  Foco

Já ouvi infindáveis textos e frases sobre FOCO. Por exemplo:
Temos que focar no projeto. Temos que focar no resultado. Temos que focar na Empresa. Foco na sua atividade, etc.

Vamos lá ! Você que está lendo até aqui, já se mostrou um leitor interessado neste assunto, então me fale: “Qual o Objetivo de Um Projeto?”

As respostas sempre são parecidas com:

– Para construir algo que ainda não existe;

– Para Melhorar algum produto ou serviço;

– Para resolver algum problema;  Etc..

Mas qual o Objetivo realmente final de tudo isso?

SEMPRE melhorar a vida de pessoas com um serviço novo, ou com produto novo, com novas funcionalidades de algo, para crescer a empresa e gerar novas oportunidade, etc..

Reparem… no final é sempre para melhorar a vida de pessoas. Certo?

Se todos entendem que um projeto serve para melhorar aspectos da vida de pessoas como objetivo final, não seria interessante termos ações coordenadas para que o caminho até o objetivo do projeto garantisse que todas as pessoas que embarcarem nesta viagem cheguem até o final da melhor maneira possível?

“Se o FOCO é no resultado, e um projeto serve para melhorar a vida de pessoas, então faz sentido que devemos dar toda a atenção nas pessoas em todos os momentos.”
Marcus Feixas

 

Bom, espero que essas histórias e narrativas possam gerar insights em quem leu o texto. E você? O que você acha que devemos fazer na gestão dos Projetos para nunca haja projéteis no trajeto?

De sua opinião e comente abaixo o que você pensa disso.

 

 

 

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